Postado em: 26 de julho, 2020.
O potencial pedagógico dos jogos de tabuleiro modernos está se comprovando também na formação de profissionais qualificados para gestão de pessoas e recursos, com uma abordagem que se mostra produtiva e eficiente. Como dinâmica de grupo que simula ambientes de competição, cooperação e negociação, os jogos de tabuleiro exercitam, ainda, o pensamento estratégico e o empreendedorismo. Grandes corporações já se utilizam dessa abordagem e na parte final da matéria mostramos como podem ser aplicadas de forma sistemática.
A premissa primeira de qualquer jogo de tabuleiro é a diversão. Porém, quando essa diversão proporciona experiências cognitivas valiosas para aquisição de experiência pessoal e profissional essenciais ao melhor gerenciamento, chegamos a uma integração de teoria e prática ideal para viabilizar o crescimento empresarial nesses tempos de grande competitividade.
A experiência com jogos de tabuleiro revela que eles proporcionam o desenvolvimento da visão sistêmica dos ambientes e do entorno. O jogador tem na mente a percepção de um mapa mental com possibilidade de visão e previsão dos fluxos de ação, podendo imaginar e projetar ações futuras. A criação de uma matriz mental de pensamento permite que o jogador faça simulações sobre o que fazer antes de agir. Colocam a prova seus sentimentos para lidar com riscos de perda e fracasso, aprimoram tomadas de decisão e planejam estratégias de superação.
Os jogos em grandes corporações
Em recente reportagem publicado pelo portal de notícias UOL conhecemos o investimento de empresas como a Nestlé, Google, Bayer nessa abordagem dos jogos de tabuleiro entre os seus funcionários. Além da aplicação desses jogos nos processos seletivos, na análise de desempenho e aprendizado corporativo, as empresas reconhecem que estes facilitam a interação entre colaboradores de diferentes níveis hierárquicos e variadas culturas.
No depoimento da analista de experiência do funcionário, Juliana França Cordeiro, não se trata apenas de entretenimento, uma vez que a prática envolve aspectos sociais, cognitivos e afetivos dos participantes: “Naquele momento, não existe hierarquia. Existe um trabalho em colaboração. As potencialidades de cada um reverberam no desafio de uma forma quase orgânica”.
A matéria do UOL levanta questão crucial e as responde: por que usar jogos na sua empresa? São imersivo e permitem a participação de todos; reproduzem situações práticas e incentivam a prática da resolução de problemas; favorecem a interação e a integração de equipes; são flexíveis e podem atender a diversas demandas; permitem observar o comportamento dos jogadores sem filtros.
Depois de algumas décadas aplicando cursos de dinâmicas de grupos em empresas acabamos por perceber que os jogos de tabuleiro moderno acrescentam componentes significativos a essas práticas, por envolverem um processo cognitivo mais pragmático nos gestores. Por isso apresentamos a seguir uma sistemática que pode auxiliar a implementação desses jogos como forma de construção de conhecimento pela vivência em grupo.
Como utilizar esses jogos em treinamento na empresa
A utilização dos jogos de tabuleiro modernos por parte dos facilitadores exige o desenvolvimento de uma sistemática que garanta o aproveitamento de sua aplicação, que pode ser empregada em três etapas:
Etapa 1. Realizar um levantamento junto aos participantes sobre o panorama vivenciado pela empresa e em seus trabalhos, com as dificuldades e desafios, as características das hierarquias e dos conflitos. A partir de então verificar quais jogos são mais apropriados, proporcionando melhor aprendizado para aquela realidade. Para tanto, existem jogos competitivos e cooperativos.
Century e Alhambra: jogos de relações mercadológicas com os tabuleiros.
Catan e Sheriff of Nottingham: relações comerciais negociadas entre jogadores.
A Ilha Misteriosa e The Grizzled: grupo torna-se equipe unida ou perde o jogo.
Etapa 2. Administrar as partidas, que podem ser praticadas inicialmente de duas maneiras: a primeira, com utilização de um mesmo jogo para todos grupos de participantes, considerando que esses jogos podem ser jogados por conjuntos de 2, 3, 4 ou mais participantes; a segunda, usando-se diferentes jogos para todos os grupos, que serão experimentados por um sistema de rodízio.
Nessa etapa é essencial acompanhar as partidas para observação dos comportamentos e atitudes naturais dos jogadores em diferentes momentos do jogo. E nesse sentido um aspecto é essencial: para além do sistema de mecânicas e jogabilidade, os participantes aprendem a conhecer melhor os colegas e a perceber, em si mesmo e nos outros, características humanas intrínsecas às relações de competição e de cooperação.
Etapa 3. Realizar encontros de reflexões sobre a vivência das partidas, suas dificuldades e descobertas, bem como suas analogias e metáforas com relação à realidade dentro e fora das organizações. Que tipo de compreensão da realidade os jogos permitem? Que habilidades foram experimentadas e como são aplicadas no contexto da organização? Entre outros aspectos sobre os quais os participantes queiram tratar.
Quanto mais apropriadas forem as escolhas dos jogos, assim com sua correta aplicação, melhores os resultados pessoais e coletivos. Porém, é preciso considerar que cada pessoa tem diferente relação com a atividade dos jogos de tabuleiro, de acordo com seus estilos de pensamento e personalidade. Racionalização e imaginação devem ser dois polos oportunos a considerar nos funcionários, porque mostram uma dualidade primária entre grupos de pessoas envolvidas em ações coletivas. O objetivo é desvelar como essa diversidade de ser e agir no mundo pode ser proveitosa para o crescimento e desenvolvimento das organizações.
Marcos Nicolau
marcosnicolau.ufpb@gmail.com
Imagens: arquivo pessoal