Postado em: 16 de julho, 2021.
A cultura africana levou muito dos seus costumes para as Américas, entre eles o hábito de jogar o milenar jogo de tabuleiro Warri, da família do Mancala. O jogo integrou-se à cultura da pequena ilha de Antígua, no Caribe e faz parte da vida e do cotidiano das pessoas de todas as idades. Por ser um jogo acessível, devido à simplicidade do tabuleiro e das peças, é comum ver grupos de pessoas jogando-o nas ruas e calçadas das cidades do país. Entretanto, essa simplicidade disfarça um grande potencial do Warri: o efetivo aprendizado da matemática por parte dos jogadores.
O jogo é composto por um tabuleiro de madeira em que se dispõem duas fileiras paralelas de seis buracos, chamados, em Antígua, de “kru”. No começo da partida, deve-se preparar o tabuleiro, colocando quatro sementes em cada kru. Em seguida faz-se o sorteio para decidir quem começa, seguindo-se com os jogadores alternadamente em turnos no decorrer do jogo. Desse modo, cada jogador tem como objetivo tentar fazer as combinações de movimento corretas para capturar o máximo de sementes possível do adversário. Aquele que capturar o mínimo de 25 sementes ao final do jogo é o vencedor.
Levado da África, onde tem diversos nomes como Oware, Awelé e Omweso, o Warri é conhecido por ser um jogo de natureza lógica e combinatória. Até por essa característica, as partidas têm um rico potencial de cativar e entreter espectadores. Em matéria para a BBC em maio de 2021, a jornalista Gemma Handy relata como as partidas envolvem o público. Segundo ela, ao observar jogos de Warri nos centros urbanos de Antígua, é frequente ver as jogadas minuciosamente pensadas, seguidas de urros e provocações dos observadores locais, intensificando o valor competitivo do jogo.
Não obstante, o jogo também tem um importante uso casual. Muitas vezes é possível vê-lo sendo utilizado como pano de fundo para conversas, similarmente a jogos como o dominó, no Brasil. Seja conversas sobre política ou esportes, para os antiguenses todo bate-papo fica melhor com uma boa partida de Warri. Até por essa característica, o jogo foi proibido na ilha pelos Europeus na era colonial, devido ao medo de sua capacidade de unir e integrar socialmente os escravos africanos.
Cena cotidiana em Antígua, nos anos de 1970. Imagem do Museu Nacional de Antígua e barbuda.
O exercício da matemática no tabuleiro de Warri
Desde noções básicas de adição e subtração até conceitos mais complexos como análise combinatória, o Warri possibilita exercitar o pensamento matemático em jovens enquanto se joga competitivamente. Seja para controlar o número de sementes em cada cavidade ou para prever o que cada movimento pode custar, as jogadas no Warri exigem sempre, habilidades aritméticas. Essas habilidades, quando exercitadas, permitem ao jogador uma base que pode até mesmo oferecer vantagens quando futuramente o mesmo for aprender conceitos básicos de informática.
No entanto, os benefícios educacionais dos jogos da família Mancala não param por aí. Leitura da linguagem corporal, capacidade de previsão e planejamento também fazem parte das disputas de Warri. Com algumas partidas de experiência, torna-se mais costumeiro que o jogador passe a perceber atitudes que podem fornecer uma vantagem. Tomar uma postura mais analítica e dominar essas habilidades faz com que um competidor seja mais bem sucedido, o que encoraja a criança que joga, por exemplo, a se colocar no lugar do outro para prever seus movimentos.
Em razão disso, Trevor Simon advoga a favor da integração do jogo aos currículos escolares. “Eu dei palestras por todo o mundo sobre a importância do Warri e eu vi o seu valor em primeira mão. É essencial que consigamos envolver os mais novos.” disse ele ao portal de notícias da BBC inglêsa.
Nos últimos anos, o esforço de pessoas como Simon vêm trazendo frutos. Cada vez mais, é possível ver torneios de jogos da família Mancala sendo feitos ao redor do mundo. Portugal, por exemplo, é uma das maiores sedes de torneios escolares desses jogos na Europa. No país lusitano, o jogo é conhecido como Ouri, e em 2009 um grande campeonato aconteceu na cidade de Covilhã, envolvendo mais de 270 escolas. Torneios desse tipo têm se repetido no decorrer da última década.
Campeonato de Ouri, sediado na cidade de Braga, norte de Portugal. Imagem da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Conheça mais sobre os jogos do tipo Mancala e baixe um tabuleiro visitando matéria já publicada nesse site: https://ludosofia.com.br/arqueologia/post-4/